"A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples" (Sl 119.130)

O culto deve ser espontâneo?

“Liberdade de expressão” é um termo popular, pois carrega em si um quesito valioso em nossos dias: a espontaneidade. Mais do que nunca, vivemos em uma época guiada pelo sentimentalismo, e aquilo que fazemos deve ser revestido de um ineditismo, de uma imprevisibilidade para que seja uma experiência “genuína”. Talvez isso seja um reflexo das (justas!) críticas à massificação humana construída a partir da Revolução Industrial, porém fomos longe demais, a ponto de desconsiderar qualquer esforço de ordem e método. Ser “metódico” virou um defeito!

O culto é feito para Deus, mas por pessoas. Então as influências sociais que recebemos acabam reverberando em nossa forma de cultuar. Nessa cultura ensandecida por ser “espontânea”, nos tornamos adoradores de Deus que não se satisfazem com hábitos e liturgias rotineiros (eu já disse que a “rotina” é vista de forma negativa pela maioria das pessoas?). Parece que o que é feito de forma planejada e pré-concebida não é uma expressão plena de adoração. O improviso emocional, fundamentado no sentimento de ocasião se tornaram aquilo que guia uma parte da igreja de Cristo em seus momentos de culto.

A virtude da espontaneidade

Na contramão do que se espera, não começarei argumentando de forma crítica. Esse texto não tem como objetivo extinguir a espontaneidade de nossos cultos, mas apenas alertar para a ditadura do espontâneo. Desde Adão e Eva percebemos que a natureza humana tem uma dificuldade intrínseca de seguir regras e andar conforme normas pré-estabelecidas. Isso pode ser uma consequência do caráter curioso, inovador e corajoso do ser humano. Descobrir novas formas de fazer as coisas sempre foi um paradigma que encantou a humanidade.

A espontaneidade faz com que uma tendência ao estruturalismo e engessamento de etapas litúrgicas seja questionado. Isso traz vida à igreja, pois não nos rendemos a um preciosismo de nos apegar a tais práticas de forma idolátrica. Além disso, abrir espaço para essa manifestação emocional da igreja colabora para a participação da congregação no culto, de forma que minimizamos o clericalismo exagerado que há em algumas tradições litúrgicas.

Podemos também apontar que ser espontâneo faz com que, de alguma forma, atendamos de forma mais incisiva aos apelos contemporâneos. É certo que o coração de alguém pode ser tocado pela realidade viva das Escrituras em qualquer tipo de liturgia, mas a probabilidade disso acontecer em um culto onde há essa oportunidade de tratarmos as questões atuais à luz das Escrituras e da glória de Deus é bem maior.

A fraqueza da espontaneidade

Porém, esse nosso ímpeto, que pode ser muito positivo em determinadas ocasiões, precisa ser dosado. Toda educação e formação de virtudes é uma espécie de “equalização”. Quem trabalha com música na igreja entende bem essa ilustração. Uma boa equalização não elimina totalmente certas frequências para dar lugar a outras exclusivamente. Um som bem mixado deve contemplar todas as frequências que estão sendo executadas, de forma que o volume de cada uma delas esteja em harmonia, tornando a experiência sonora algo agradável.

Da mesma forma, ser espontâneo é bom, mas por vezes agimos com uma “frequência” ou um “volume” acima do necessário. Para resolver isso, não devemos abafar a espontaneidade, expulsando-a de nossas liturgias, mas limitando-a a seus níveis satisfatórios. Há lugar para ineditismo e espontaneidade na adoração coletiva, porém ela deve servir aos propósitos maiores do culto a Deus.

Estabelecer uma supremacia do espontâneo no culto enfraquece o aspecto didático que a liturgia faz tão bem. Se a cada semana o culto é de uma forma, ninguém mais aprenderá o padrão de culto que nos faz crescer como cristãos, de acordo com que cada parte da liturgia nos ensina. Não há aprendizado sem repetição. A espontaneidade demanda a ordem litúrgica para não se perder em amenidades, e a liturgia demanda espontaneidade para não se tornar uma estrutura cristalizada no tempo.

Cada coisa em seu lugar

Não precisamos abrir mão de uma coisa ou de outra, principalmente se ambas trazem benefícios. E mais: se os benefícios podem ser potencializados quando as unimos. É assim que deve ser vista a relação entre a ordem do culto e espontaneidade. Basta lembrar que Paulo diz que o culto deve ter ordem e decência em um capítulo sobre a profecia e as línguas na liturgia de Corinto! A esperança é que tenhamos maturidade para equilibrar esses dois aspectos, e então possamos ter uma experiência de culto que contemple ambos, para que a adoração coletiva seja revestida de uma prática completa por parte da congregação.

Gabriel Carvalho é especialista em Teologia e Ministério pelo Seminário Batista do Sul do Brasil e em Teologia Prática pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper. Formado em Teologia pelo Instituto Bispo Roberto McAlister de Estudos Cristãos (IBRMEC) e em Direito pela Universidade Estácio de Sá. É autor de Razão Visceral: Uma proposta convergente para o culto cristão.

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