"A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples" (Sl 119.130)

Durão e inflamável

O sexo fácil cria homens rudes?

Tinder é um app popular de namoro que opera sob a premissa de que relacionamentos deveriam ser algo fácil de começar. Os usuários recebem uma enxurrada de imagens dos solteiros disponíveis. Deslize para a esquerda para ignorar. Deslize para a direita para demonstrar interesse. Se a mesma pessoa também desliza para a direita, uma conversa é iniciada. Leva-se sempre em conta as proximidades geográficas, com as maiores taxas de conexão sendo num raio de aproximadamente 1km entre os usuários.

E o app tem agora dez milhões de usuários ativos diariamente.

A popularidade do Tinder também levanta muitas questões. Como deslizar e curtir a mera imagem de um potencial parceiro distorce os padrões e expectativas de namoro? E como homens entrarão em relacionamentos de namoro em uma sociedade onde eles são apresentados com um harém digital de opções sem limites?

O Tinder auxilia o amor?

Ainda mais fundamentalmente, quero fazer uma pergunta mais comum: para quê o Tinder é útil? O Tinder é realmente apenas um lugar para iniciar um “encontro sexual casual”, como alguns suspeitam, ou é uma plataforma onde relacionamentos saudáveis de longo prazo são iniciados?

“Esta é uma falsa dicotomia”, escreveu um psicólogo em sua defesa ao Tinder. “Como pesquisador psicológico que estuda namoro online, acredito que a abordagem do Tinder é ótima tanto para buscar sexo casual quanto para encontrar um parceiro para um relacionamento sério.”

Se isso soa terrivelmente confuso e potencialmente enganador, é porque de fato é. “Se você está em um desses apps de namoro, o jogo é diferente para homens e mulheres,” escreveu um comentarista da CNN. “Homens ‘acumulam’ quantas parceiras sexuais eles podem. Mulheres tentam não perder a pessoa com quem estão ‘ficando’. Como é possível vencer um jogo com regras diferentes? É impossível.”

A ilustração primordial dessa confusão do Tinder foi um artigo detalhado (e graficamente explícito) publicado por um grande periódico. Nele, a jornalista Nancy Jo Sales cita diversos usuários do Tinder, incluindo histórias comoventes, como uma jovem mulher que admitiu: “Fiz sexo com um cara e ele me ignorou enquanto eu me vestia, e eu vi que ele estava de volta no Tinder.”

Pare e pense sobre isso por um momento.

E lamente.

Então por que um homem se conectaria com uma mulher no Tinder, dormiria com ela, e depois a ignoraria imediatamente, voltando sua atenção para o próximo objeto de sua luxúria?

“Me perguntei se poderia haver um paralelo com a obra O mito da beleza, de Naomi Wolf (1991),” escreve Sales. “Wolf postulou que, ao passo que as mulheres alcançavam maispoder social e político, havia mais pressão sobre elas para serem ‘bonitas’ como meio de enfraquecer seu empoderamento. Agora, será possível que a tendência de desestabilização que as mulheres estão enfrendo seja a falta de respeito que encontram em homens com quem elas fazem sexo? Será que a pronta disponibilidade de sexo oferecida por apps de namoro pode estar fazendo com que homens respeitem menos as mulheres?”

E isso leva a uma pergunta de grande importância: sexo fácil faz com que homens se tornem rudes?

A resposta implícita é sim – mas por quê?

“As expectativas de jovens mulheres de segurança e direito a respeito talvez tenham aumentado mais rápido do que a disposição de jovens homens de respeitá-las,” postula Stephanie Coontz, professora de história e estudos de família na Evergreen State College. “Homens abusadores e desrespeitosos sempre existiram. Há muitos homens evoluídos, mas talvez haja algo acontecendo na cultura do ‘ficar’ agora que está fazendo com que alguns sejam mais resistentes à evolução.”

Sexo fácil faz com que homens se tornem mais rudes com mulheres? Sim. Mas isso é causado por um atraso evolutivo nos homens? Não. As respostas para o porquê de sexo fácil criar homens insensíveis são uma compilação de quatro verdades bíblicas que a igreja pode reclamar e proclamar na era do Tinder.

1. Sexo fácil precede a era digital

Sexo fácil rondando pelas ruas locais já era um problema bem antes da tecnologia do GPS em um smartphone poder conectar parceiros disponíveis em uma cidade. A Escritura nos fala da isca do sexo fácil, oferecido por uma mulher sedutora que andava pelas ruas sozinha (Pv 2.16-19; 5.1-23; 6.20-35; 7.1-27; 9.13-18; 23.26-28).

O sexo fácil é uma isca não para homens másculos, mas para homens ingênuos, ignorantes demais para vê-lo pelo que ele realmente é: uma armadilha de luxúria autodestrutiva.

2. Homens (e mulheres) que buscam sexo fácil são egoístas

Ídolos sexuais sempre são manifestações de uma cobiça centralizada no ego (Ef 5.3). E como manifestações da cobiça, a idolatria sexual deve sempre desumanizar os objetos de luxúria.

Homens, atraídos pelo âmago do próximo momento de êxtase sexual, necessariamente objetificam e degradam mulheres nessa busca.

3. Sexo fácil é um estraga-prazeres

O prazer de ídolos sexuais, como qualquer idolatria, é estrangulado pela lei dos rendimentos decrescentes. A luxúria não pode satisfazer o coração por muito tempo, como Salomão aprendeu ao encher sua vida de centenas de parceiras (Ec 2.8). No fim do experimento, sua alma estava dormente e vazia para os prazeres da vida. Tudo o que ele pensou ter ganho só serviu para esvaziar ainda mais a sua alma. O sexo fácil ficou cada vez mais insatisfatório.

Parceiros sexuais ilimitados esvaziam a vida do prazer sendo buscado.

4. Mulheres devem ser valorizadas

O desejo que as mulheres têm de serem amadas, apreciadas e estimadas por um homem digno não é subproduto do avanço da evolução, mas do bom desígnio de Deus para mulheres refletirem ao mundo o deleite da Noiva como objeto do amor sacrificial de Cristo (Ef 5.25-33). O divino teatro dos séculos prova que sim, um homem deve valorizar uma mulher.

A Bíblia até mesmo emprega uma linguagem descarada para mostrar uma noiva que foi realmente estimada e valorizada como deve ser, como é apropriado e adequado (Ct 2.4-5).

Essa noiva “recebeu afirmação e aclamação pública, e ela veste o amor de seu marido como um estandarte”, observa a autora Carolyn McCulley. Em vez de insegurança ou decepção, essa mulher festeja seu status. Ela não é uma parceira sexual casual ou descartada. Ela é celebrada e estimada – e intoxicada com a atenção sexual de seu marido. Essa é a mensagem que as jovens mulheres de hoje precisam ouvir. O desígnio original de Deus para o sexo ainda é o melhor” (Feminilidade Radical).

Essa é uma mensagem oportuna à qual nossa sociedade precisa desesperadamente que jovens homens prestem atenção. O casamento é o melhor lugar para uma mulher ser valorizada por um homem.

Homens sempre cobiçarão mulheres que eles não respeitam. O desafio é que um homem aprenda a respeitar mulheres como co-herdeiras da vida eterna, como rainhas do céu, e nesse sentido buscar uma mulher que possa amar e valorizar.

Essa é a obra gloriosa da graça que os encontros do Tinder nunca nutrirão. É uma obra gloriosa que solteiros verdadeiramente cristãos desejam ao divulgarem seus novos valores e afeições a um mundo perdido que precisa ver um caminho melhor do que a enganosa, prejudicial e insensibilizadora cultura do ‘ficar’ que os apps digitais tornam mais conveniente do que nunca.

O que era verdade antes dos apps de namoro permanecerá verdade até o fim dos tempos. O homem é chamado a buscar expressão sexual dentro da intimidade pactual com uma mulher valorizada: sua esposa. O pecado sempre complicará esse objetivo, mas o sangue de Cristo de fato tornará tais relacionamentos possíveis e extraordinários. Não é um plano simplesmente pudico, mas uma outra ramificação maravilhosa de um lindo desígnio do Criador para manifestar a glória de seu Filho para o mundo

Tony Reinke é jornalista e atua como escritor sênior no Desiring God (desiringGod.org). É o apresentador do podcast Ask Pastor John, programa com o teólogo John Piper, e autor de diversos livros. Também escreve no blog tonyreinke.com

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