"A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples" (Sl 119.130)
Foto de Hieu Vu Minh

O antigo ou o novo?

O que é melhor: um carro zero, porém mais simples, ou um carro usado, porém mais potente? Um jogador de futebol novo cheio de vontade ou um experiente que sabe lidar com a pressão? Uma série de TV antiga e premiada ou uma nova com histórias mais atuais? Trabalho presencial ou homeoffice? Sabedoria dos anciãos ou a vitalidade dos jovens? Livro físico ou ebook? Igrejas mais antigas e tradicionais ou igrejas novas e modernas? Bíblia de papel ou no celular? Hinos antigos ou cânticos mais novos?

Muito do debate atual gira em torno da escolha entre o antigo e o novo. Em diversas áreas e assuntos, o dilema permanece: qual será a melhor escolha? É certo que ambos possuem pontos positivos e negativos, e que toda escolha envolve a rejeição da opção não escolhida, porém precisamos pensar melhor sobre este assunto. Será que precisamos ter uma escolha tão binária assim, que ao escolher um lado necessariamente rejeitamos o outro? Não há uma possibilidade de integrarmos os pontos positivos de ambos?

Em relação ao culto cristão, essa discussão não é diferente. Há um embate antigo sobre a melhor forma de cultuar. Por um lado, alguns defendem uma liturgia mais fixa e ordenada, inspirada no culto europeu do século XVI; por outro lado, há os que defendem uma liturgia “livre”, espontânea e sem muitos limites pré-definidos. Soma-se a isso as inovações tecnológicas e as novidades trazidas pelo mercado gospel aos elementos que utilizamos nos cultos. Quando falamos sobre o culto, devemos escolher o antigo ou o novo?

Um dos maiores estudiosos do assunto, Robert Webber, debruçou-se sobre esta questão no século passado, e propôs o que ele chamou de Blended Worship (“adoração combinada”), ou Ancient-Future Worship (“culto antigo-novo”). A proposta de Webber é simples: por que não podemos unir o que há de melhor nas tradições antigas de culto – como, por exemplo, a liturgia reformada e a liturgia sacramental – com as mais modernas, como o evangelicalismo e a tradição pentecostal-carismática? Será mesmo que precisamos escolher entre um ou outro, se na verdade podemos ter o melhor de um e de outro?

É certo que as liturgias e elementos de culto modernos possuem um apelo à geração atual, porém a utilização destas sem uma base sólida de uma tradição de culto provada pelo tempo pode levar a excessos e desvios. No fim das contas, um precisa do outro: o antigo precisa do novo para não se cristalizar num século longínquo, correndo o risco de não tocar o coração das pessoas; e o novo precisa do antigo para ter um fundamento sólido e não ser levado e movido pelo mar de novidades que surgem dia após dia.

Creio que essa proposta de convergência é um bom caminho, e que precisamos refletir e discutir sobre este assunto, para que possamos amadurecer em nossa forma de cultuar. Em meu livro, Razão Visceral: uma proposta convergente para o culto cristão, eu detalho melhor como tanto o antigo quanto o novo podem contribuir para essa ideia litúrgica que abrange o melhor de ambos. Entendo que precisamos abrir os canais de comunicação entre as tradições para que possamos aprender uns com os outros, de forma que nossas propostas de culto glorifiquem a Deus cada vez mais. 

Não precisamos escolher entre o antigo e o novo. Apropriar-se de ambos é reconhecer a mão de Deus agindo no decorrer da história da igreja, e crer que o Espírito Santo guiou tanto nossos irmãos do passado quanto os irmãos do presente. Desenvolver uma adoração combinada entre antigo e novo é uma forma de reconhecimento da ação divina em meio ao seu povo. Pois ele é “aquele que era, que é e que há de vir” (Ap 1.8).

Gabriel Carvalho é especialista em Teologia e Ministério pelo Seminário Batista do Sul do Brasil e em Teologia Prática pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper. Formado em Teologia pelo Instituto Bispo Roberto McAlister de Estudos Cristãos (IBRMEC) e em Direito pela Universidade Estácio de Sá. É autor de Razão Visceral: Uma proposta convergente para o culto cristão.

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