"A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples" (Sl 119.130)
Pessoa segurando bíblia. Foto de Hannah Busing no Unsplash

Encontrando seu lugar no culto

O ser humano vive numa eterna busca por encontrar o seu lugar no mundo. A sociedade colabora com esse ímpeto ao nos convencer de que a melhor posição a se conquistar é a de destaque – a de comando e poder. Fomos criados para achar nosso espaço, desde que este espaço seja bem valorizado, bem visto e bem destacado. O grande problema talvez seja que buscamos aplicar esse princípio em todos os aspectos de nossa vida, até mesmo no culto a Deus.

A postura passiva

Entendo que há três posturas possíveis quando nos reunimos como igreja para prestar culto ao Senhor. A primeira delas é a postura passiva. Ela é caracterizada pelo infeliz vocabulário que lamentavelmente se alastrou quando falamos do momento de adoração a Deus: “Estou indo assistir ao culto”. Agimos na igreja praticamente da mesma forma como agimos no cinema, ou assistindo a uma série no conforto da nossa casa: é estabelecido um distanciamento, uma imparcialidade que mina nossa capacidade de ativamente cultuarmos a Deus. 

Essa atitude tem influência histórica, quando em determinado momento da era medieval a igreja passou a encarar o culto como um ato de protagonismo do clero, em que os celebrantes atuavam e o povo apenas assistia a tudo, sem uma colaboração ativa. Um dos grandes legados da Reforma Protestante foi resgatar a ideia da participação comunitária na adoração, a começar pela tradução das Bíblias e dos cultos para a língua do povo. A postura passiva, na verdade, é uma não-postura, uma rejeição frontal à adoração por meio da omissão de seus atos e palavras.

Parece fácil chegar à conclusão, então, de que a postura correta no culto é a ativa, aquela em que participamos do momento de adoração coletiva. Porém, mesmo com uma postura ativa, há perigos que devemos evitar. Como já vimos, a sociedade nos ensinou que devemos buscar o protagonismo, e que nosso lugar no mundo seria encontrado por meio das posições de destaque e comando. E transferimos isso para o culto. 

A postura ativa-protagonista

Sendo assim, uma segunda postura, também equivocada, é a ativa-protagonista. Ela é vista principalmente em cultos antropocêntricos, ou seja, aqueles nos quais o ser humano e suas necessidades e anseios são o tema central da celebração. Até existe uma postura ativa, mas ela é praticada sempre de forma autorreferente e autocentrada. Na prática, as músicas falarão apenas dos sentimentos e buscarão responder tão somente os problemas humanos; a pregação será uma espécie de discurso otimista para trazer bem-estar; as orações serão feitas de forma egoísta e às vezes até autoritária. Essa postura é caracterizada por outra infeliz frase muito comum no vocabulário evangélico popular: “Estou indo ao culto para ‘me abastecer’”, como se o momento de adoração coletiva fosse apenas uma desculpa para melhorar nosso ânimo.

Certamente há encorajamento pessoal no culto. Porém ele é produzido de forma indireta: não vem a nós diretamente por meio de palavras positivas, mas sim quando somos expostos às verdades grandiosas e impactantes do evangelho. Quando Cristo é exaltado, eu recebo ânimo; quando o evangelho é proclamado, minha esperança é renovada; quando a igreja engrandece o nome do Senhor, meu interior é encorajado. Somos, sim, renovados no culto, mas tão somente pelos méritos de Cristo.

A postura ativa-coadjuvante

Por fim, há uma terceira postura, que acredito ser a mais correta e coerente com uma visão bíblica do culto a Deus: a ativa-coadjuvante. Em todo bom filme há bons protagonistas, mas também há bons personagens coadjuvantes. Estes são aqueles que, apesar de não serem os principais na história, colaboram para que o enredo se desenvolva, e colaboram para que a estrela dos protagonistas brilhe ainda mais. Nenhum bom coadjuvante deseja tomar o lugar do protagonista da história.

Não somos protagonistas porque já existe um, muito mais preparado e digno de receber toda a atenção, glória e adoração.

Assim deve ser nossa postura no culto. Esse é o nosso lugar. Não somos protagonistas porque já existe um, muito mais preparado e digno de receber toda a atenção, glória e adoração. Seremos ativos no culto, mas como bons coadjuvantes, sempre apontaremos para aquele que é o principal na celebração. A igreja se reúne para falar de um só: o Deus Triuno. Todo o restante é secundário. Agimos, cantamos, ouvimos e oramos, tudo isso de forma muito ativa. Mas tendo sempre em mente que tudo o que fazemos deve buscar dar glória ao grande e supremo protagonista: o Deus de toda glória e merecedor de toda adoração.

Gabriel Carvalho é especialista em Teologia e Ministério pelo Seminário Batista do Sul do Brasil e em Teologia Prática pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper. Formado em Teologia pelo Instituto Bispo Roberto McAlister de Estudos Cristãos (IBRMEC) e em Direito pela Universidade Estácio de Sá. É autor de Razão Visceral: Uma proposta convergente para o culto cristão.

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