"A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples" (Sl 119.130)

Catedral com vitrais ou prédio com paredes pretas?

Uma catedral datada do século XVI, com um imenso pé direito, teto abobadado, vitrais centenários, clérigos vestidos de estola e música acompanhada por um órgão de tubos. Um auditório cúbico, com um amplo palco resguardado por um imenso painel de LED, com as paredes devidamente pintadas de preto e uma banda de rock ditando o ritmo das músicas, seguido de uma pregação de um pastor com as roupas da moda atual. Ambas são descrições de um culto cristão dos dias de hoje. Mas se estamos falando de uma mesma fé e um mesmo evangelho, por que há tantas diferenças na forma de cultuar?

Você pode até ter uma opinião e uma argumentação a favor de um ou outro modelo, porém devemos admitir que, caso as verdades centrais da fé cristã estiverem sendo pregadas, em ambas as situações haverá um culto cristão acontecendo. Alguns podem questionar, com razão, o motivo de haver uma distinção tão elástica entre tais formas de cultuar. Se há uma mensagem única, qual a lógica de aplicá-la de formas tão diversas?

As diferenças entre as diversas tradições de culto ao longo da história da igreja podem ser resumidas em três aspectos: conteúdo, estrutura e estilo.

O primeiro critério: conteúdo

O conteúdo diz respeito àquilo que é proclamado no culto. O que as nossas reuniões de adoração pretendem transmitir aos seus participantes? O que estamos ensinando ao cantar as músicas que cantamos e ao pregar as mensagens que levamos ao púlpito domingo após domingo?

Parece óbvio posicionar a ênfase do conteúdo nas Escrituras e na pregação do evangelho. Porém, infelizmente, essa nem sempre é a realidade. Muitas vezes esse conteúdo está sendo relegado a uma menor importância, e isso acontece quando supervalorizamos os demais aspectos (estrutura e estilo). O conteúdo de um culto deve transmitir claramente a grande história da salvação; isso é feito quando os elementos da liturgia estão fundamentados na Palavra de Deus. Todo o conhecimento confiável que temos de Deus vem das Escrituras, então é dela que tiramos o subsídio, a nutrição espiritual necessária para o crescimento da comunidade na adoração da igreja local.

O segundo critério: estrutura

Tendo estabelecido a importância do conteúdo, devemos pensar na estrutura. O conteúdo alcança relevância quando é corretamente colocado dentro de uma estrutura que dê a ele a proeminência devida. Os atos estruturais de um culto precisam colaborar para a correta e clara proclamação do conteúdo. Neste ponto, pode haver variações. Tradições mais formais e litúrgicas adotam uma estrutura em quatro passos: Chamamento-Palavra-Ceia-Envio, onde o sacramento da Ceia é valorizado junto à pregação e a despedida do culto possui um viés missionário, de aplicação na vida ao longo da semana; já tradições mais modernas, principalmente o evangelicalismo, adotam uma estrutura mais simples, centradas no trinômio Música-pregação-Oração, onde a música é valorizada como instrumento didático e a oração ganha uma perspectiva essencial para a vida da igreja.

Estruturas podem variar. Nenhum engenheiro em sã consciência constrói edifícios diferentes com a mesma estrutura. Estas precisam ser adaptadas para funcionar melhor de acordo com o uso que será feito daquela edificação. Da mesma forma, as diferentes tradições litúrgicas atendem a propósitos diversos, que são contemplados dentro da multiforme graça de Deus. Dessa forma, é até natural que as tradições adotem estruturas diferentes, a fim de que possam cultuar com excelência, dentro daquilo que Deus as comissionou que fizessem e de acordo com as especificidades ministeriais concernentes a cada uma.

O terceiro critério: estilo

Precisamos ainda abordar um terceiro aspecto importante: o estilo. É necessário que haja um mesmo conteúdo, porém este pode ser expresso em estruturas diferentes. Da mesma forma, dentro das diferentes estruturas ainda é possível estabelecer estilos diferentes. Como o conteúdo se reveste de uma perspectiva dogmática, ele funciona como o alicerce de uma casa. Já as estruturas assemelham-se às perspectivas doutrinárias, e funcionariam como as paredes da casa – apesar de importantes para manter a casa de pé, podem estar em um ou outro lugar, sem comprometer toda a construção. O estilo, finalmente, se aproxima de uma perspectiva da opinião, e funcionaria como a decoração da casa – não importa muito se haverá um grande tapete, um lustre ou um quadro de Rembrandt na parede, desde que o alicerce e as paredes mantenham a casa de pé.

O que quero dizer é que o estilo varia. Muito. Isso não deve ser uma preocupação, desde que o conteúdo e a estrutura estejam em seu devido lugar. Você tem todo o direito de criticar ou discordar do estilo de liturgia de alguma igreja, mas se a questão se limitar tão somente ao estilo, isso será uma mera questão de gosto pessoal – assim como alguém pode achar cafona um jogo de crochê de banheiro ou usar papel de parede no quarto. O estilo é apenas uma forma diferenciada de destacar o conteúdo e a estrutura. Por mais que você não goste, o evangelho pode estar sendo pregado de forma satisfatória tanto na catedral centenária quanto na igreja de parede preta.

Equilibrando a balança

A maioria dos excessos litúrgicos que vemos tem sua origem na confusão dessas esferas: em alguns lugares, a ênfase no estilo faz com que o conteúdo seja diluído (ou mesmo excluído); a necessidade de engessar estruturas sufoca o estilo e – pior ainda – o próprio conteúdo; uma ênfase exclusiva no conteúdo, sem considerar estrutura e estilo, pode estar fadada a não se conectar com a comunidade local, de forma que não tenham uma experiência plena de culto a Deus.

O grande desafio de pastores e líderes envolvidos com a liturgia na igreja local é equilibrar essa balança. Partindo de um alicerce firme do conteúdo enraizado nas Escrituras, estabelecer uma estrutura que sustente essa edificação e dê espaço para que o estilo a diferencie e estabeleça seu jeito próprio de anunciar o valioso conteúdo ao qual somos encarregados. Sim, há muitos cultos cristãos diferentes, mas essa diferença é apenas exterior: estilo ou estrutura. Porque um culto verdadeiramente cristão sempre manterá o conteúdo intacto: o evangelho de Cristo, seja pregado na catedral mais antiga ou na igreja mais moderna da cidade.

Gabriel Carvalho é especialista em Teologia e Ministério pelo Seminário Batista do Sul do Brasil e em Teologia Prática pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper. Formado em Teologia pelo Instituto Bispo Roberto McAlister de Estudos Cristãos (IBRMEC) e em Direito pela Universidade Estácio de Sá. É autor de Razão Visceral: Uma proposta convergente para o culto cristão.

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