"A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples" (Sl 119.130)
Bancos em uma igreja. Foto de Gregory Hayes

Conserte o carro: os meios e os fins da adoração

As analogias são poderosos meios didáticos, porém é importante saber fazê-las. Uma das analogias recentes que li, feita pelo brilhante teólogo D. A. Carson, levou-me a uma reflexão importante. Aliás, para que serviriam as analogias senão para nos levar a pensar? Em meio ao turbilhão de pesquisas para meu primeiro livro, “Razão Visceral”, vejo Carson dizer o seguinte:

Nós não esperamos, ao ir a uma oficina, que o profissional fique falando a respeito da excelência das ferramentas que ele usa; nossa expectativa é que ele conserte o carro. 1

Em nossa recente cristandade, tal frase poderia ser traduzida da seguinte forma (com todo respeito a Maquiavel): “os fins não justificam os meios, pois os meios justificam-se a si mesmos”. Vivemos em uma era dos meios. Talvez porque somos ensinados desde a primeira infância a sermos pragmáticos, ou seja, a fazer algo porque funciona. O “funcionar” hoje é um verbo mais bem avaliado do que o “ser” ou mesmo o “ter”. No século da utilidade, o que “não funciona” é tranquilamente descartado.

Fomos invadidos pela era dos meios. Aliás, invadidos não; seduzidos. Talvez não haja nada mais prazeroso para o ser humano do que ver coisas funcionando. Adoramos os meios porque os dominamos. É a síndrome de poder do Éden reverberando geração após geração. Ficamos tão apaixonados pelas “ferramentas” que muitas vezes esquecemos de “consertar o carro”. Com isso, surgem situações inusitadas: debater teologicamente sobre evangelismo se torna mais frequente que o evangelismo em si; muitos fazem cursos e leem livros sobre oração, mas não gastam seu tempo orando.

Em relação ao culto cristão, não é diferente: gastamos tanto tempo discutindo detalhes operacionais do culto público (as ferramentas) que não sobra tempo para cultuar verdadeiramente. Até o próprio momento de culto vira uma ocasião para “análise das ferramentas”. Nossas igrejas têm experimentado uma diminuição no número de adoradores e um aumento no número de analistas, sempre prontos a enumerar à liderança ao final do culto tudo aquilo que “não funcionou”.

Agora, não basta apontar o problema. É preciso tentar esboçar algo propositivo para mudar esse cenário. Qual deve ser a nossa postura diante disso? Creio que o primeiro passo é amar menos nossas “ferramentas”. Este é um ídolo de difícil identificação, pois muitas vezes está escondido em uma aura espiritual: uma doutrina, uma tradição litúrgica, um ponto teológico – ferramentas que não são um mal por si mesmas, mas que se tornam distrações quando passam a ser veneradas. 

Uma outra tentativa é buscar separar bem o momento da discussão ferramental do culto em si. Sim, vamos conversar e construir uma teologia do culto saudável. Mas tudo tem seu tempo. A partir do momento em que o culto se inicia, é o momento de encontro com Deus, de adoração ao Deus Eterno. Enfatizar ferramentas nesta hora é perder uma oportunidade viva de perceber o Espírito Santo se manifestando à igreja reunida. Nenhum culto será perfeito, e sempre haverá algo a ser melhorado. Mas o culto imperfeito é a oportunidade perfeita de enaltecer o Rei dos reis em sua própria presença real no meio do seu povo.

Ferramentas são servas, e não senhoras. Elas nos ajudam, e não o contrário. Por isso é necessário não perder de vista nossa real função: “consertar os carros” – ou seja, cultuar a Deus de fato, e deixar os detalhes litúrgicos em seu devido lugar. Quando entendermos isso, seremos mais eficientes em nosso trabalho e no serviço de adoração a Deus.

1 Louvor: análise teológica e prática (Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017).

Gabriel Carvalho é especialista em Teologia e Ministério pelo Seminário Batista do Sul do Brasil e em Teologia Prática pelo Centro Presbiteriano de Pós-graduação Andrew Jumper. Formado em Teologia pelo Instituto Bispo Roberto McAlister de Estudos Cristãos (IBRMEC) e em Direito pela Universidade Estácio de Sá. É autor de Razão Visceral: Uma proposta convergente para o culto cristão.

Comments (1):

  1. Thiago Marcone

    10 de abril de 2021 at 12:07 AM

    Há muitos pragmáticos com selo de zelosos. Sectários se sentindo na função de analistas. A despeito dos ajustes, a beleza do culto público não pode deixar de ser admirada, e sentida.

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